Uma reflexão sobre alimentação

Dra. Carolina Miranda
A alimentação constitui-se num ato que vai além do mero atendimento às necessidades biológicas. Possui importante caráter simbólico, exprimindo identidades sociais e culturais, constituído-se numa linguagem repleta de significados. Torna-se parte importante da constituição das identidades.

Os sistemas de alimentação consistem na seleção e transformação dos produtos da natureza para satisfazer as necessidades dos grupos humanos. Para compreendermos os hábitos alimentares, precisamos contemplar os condicionamentos econômicos, urbanos, comportamentais e de desenvolvimento científico e tecnológico.

Segundo Mintz (2001) pela sua natureza vital o comer assume uma posição central. Através do comer o homem incorpora nutrientes essenciais ao seu organismo e nutre-se de simbolismo. Nossas escolhas alimentares estão relacionadas ao nosso universo simbólico, são uma afirmação de nossa identidade. Interagindo a este universo simbólico estão a disponibilidade de alimentos e o domínio das técnicas de produção. De acordo com este autor: “Comer é uma atividade humana central não só por sua freqüência, constante e necessária, mas também porque cedo se torna a esfera onde se permite uma escolha.” (p. 2).

Ainda sob a ótica de Mintz (2001) o comportamento alimentar está diretamente relacionado a nossa identidade social. Nossos hábitos alimentares possuem forte carga emotiva, principalmente por herdarmos de adultos afetivamente poderosos.

Dória (200-), em uma narrativa sobre gastronomia, salienta que nada é mais desconfortável do que a repulsa por um alimento. O ato de comer precede confiança no outro, que nos garante ser bom e seguro.

Collaço (2003) ressalta que a casa fornece o molde ideal de comer, que com o passar dos anos pode ser moldado pelas vivências, porém as mudanças imprimidas estão vinculadas às representações do comer pré-existentes. Ainda sobre este tema alguns autores afirmam que muitas práticas alimentares têm pouca possibilidade de mobilidade porque estão ligadas ao mundo maternal.

A autora nos coloca que as lembranças afetivas da infância são muito importantes porque, por breves instantes, elas nos colocam de posse de um futuro sem limites. Lembrar do passado é pensar em tudo que poderíamos ser.

O que subsiste por mais tempo como referência a cultura de origem de uma pessoa é a comida, através dela identificamos um gupo, região ou época.

Péclat (2005) “A cozinha é o meio universal pela qual a natureza é transformada em cultura.” (p. 216).

Das espécies animais o homem é o único que combina alimentos, criando uma culinária.

Para Claude Fischler[1] (2001, apud MACIEL, 2001, p. 4) através da alimentação o homem compartilha representações coletivas.

[ . . . ] a variedade das escolhas alimentares humanas precede, sem dúvida, em grande parte a variedade de sistemas culturais: se nós não consumimos tudo que é biologicamente ingerível é porque tudo que é biologicamente ingerível não é culturalmente comestível.

Os hábitos alimentares são sujeitos ao arbítrio cultural; não somente o que comemos, mas como, quando e onde, são definidos pelo grupo ao qual pertencemos.

O desenvolvimento científico atual tem lançado novas informações a respeito dos efeitos da alimentação, e induzido à incorporação de novas concepções a respeito do que é saudável, resultando em mudanças importantes nas práticas alimentares e nas concepções coletivas sobre este conceito. Criam-se novos arbítrios coletivos.

Giard (1996) coloca que nós também comemos nossas representações sociais do que é saudável para nós. Para esta autora os hábitos alimentares compõem cruzamentos de histórias, transmitem de geração a geração uma memória fragmentária da vida destas gerações. Através do interesse e cuidado com a comida, traduzimos a relação que temos com nosso corpo. “Talvez seja necessário reconciliar-se com o próprio corpo para dar-se o trabalho de nutri-lo.” (p. 260).

No mundo moderno, a urbanização, a industrialização e a globalização vêm provocando importantes mudanças nos sistemas alimentares. Na passagem da dieta rural para urbana uma nova configuração de necessidades e possibilidades define as práticas alimentares. As configurações sociais são dinâmicas e provisórias.

Gracia Arnaiz (2005) nos fala das contradições que os sistemas econômicos estão produzindo. O mesmo sistema produz o mal, a abundância, a promoção ao consumo e paralelamente lança seu remédio, a restrição dietética, os medicamentos emagrecedores, atividades físicas.

O modo de vida moderno tem provocado a perda de contato com os ciclos produtivos. Não se reconhece mais a forma nem composição do alimento.

Cria-se uma sensação de insegurança e desconfiança com aquilo que se ingere. Assim sendo, as marcas passam a ocupar o papel de conferir credibilidade a um produto.

O Estado passa a regular as normas de produção e consumo de alimentos. Cria-se a necessidade do indivíduo confiar no saber científico e nos códigos e normas institucionais. Atualmente para se escolher um alimento de forma mais segura possível é necessário reconhecer os rótulos, identificar seus códigos. Mas num país como Brasil, onde o descumprimento de normas é uma prática comum e os sistemas fiscalizatórios precários, a desconfiança com a qualidade do que se está ingerindo tem aumentado.

A circulação global de comidas e pessoas tem aumentado as variedades, homogenizado algumas práticas. A alimentação já não marca mais uma estação, uma geografia.

As transformações tecnológicas na produção de alimentos estão produzindo muitos produtos que não reproduzem a mesma transformação culinária do passado, dessa forma se tornam culturalmente não comestíveis.

Na comensalidade contemporânea a jornada de trabalho condiciona a alimentação, definindo os horários, o local onde se come, com quem e até mesmo o que se come.

Na sociedade moderna há uma individualização das vivências e com isto perdem-se os momentos de convivialidade e sociabilidade que a comida proporcionava. Nas famílias extensas o momento da refeição era também de convívio.

Maciel (2001, p. 6) lembra que a palavra companheiro provém de cum panem, “[ . . . ] os que compartilham o pão.” Assim através do comer junto se reforça a coesão do grupo, se compartilham sensações e memórias.

Na sociedade atual individualizada, estes momentos de convívio em família têm sido substituídos pelo happy hour, pelos jantares em casa de amigos, criação de confrarias de gourmet, cursos de culinária.

Prado (2005) salienta que nas definições de alimentação saudável há uma sobreposição da razão ao afeto, os conceitos privilegiam as características químicas dos alimentos.

[ . . . ] há menos antigos prazeres, afetos, rituais, segurança diante da comida conhecida. Em seu lugar, a expansão da razão, a escolha dos alimentos a partir de seus nutrientes e sua funcionalidade, de seu caráter medicamentoso [ . . . ]. (p. 10).

O desenvolvimento da ciência passa a ditar os padrões do que é saudável ou não. Instituir recomendações alimentares tecnicamente normatizadas somente por seu caráter medicamentoso é condená-las a uma baixa incorporação, uma vez que não se está considerando os padrões identificatórios, simbolismos e afetos que esta traduz.

Canesqui e Diez Garcia (2005b) abordam uma questão importantíssima ao pensarmos políticas públicas para promoção de saúde. É preciso se respeitar as culturas locais, os costumes, as peculiaridades regionais. Muitas orientações nutricionais escapam o universo local, foram produzidas por estudos científicos realizados em outras comunidades, ou até mesmo em outros países, fundamentadas, por conseguinte em outros padrões alimentares. Qualquer que seja a prescrição alimentar ela será ressignificada para partilhar um sistema de valores, portanto sofrerá modificações.

O estado tem focado a responsabilidade sobre a saúde no indivíduo, sem considerar os fatores externos, tais como fatores econômicos, ambientais e sociais, eximindo-se de sua responsabilidade. Como fatores externos também é preciso considerar os aditivos químicos e toxinas que muitas vezes os sistemas produtivos e de armazenamento produzem e tornam-se nocivos à saúde dos indivíduos. Estes fatores se encontram fora da alçada de controle e escolha individual, até mesmo porque, a população os desconhece.

Dessa forma, atendendo aos interesses de mercado, dentro da alimentação também se criam necessidades de consumo, com promessas de obtenção de saúde e juventude. Se estiver fora dos padrões definidos como próprios, o indivíduo está praticamente se condenando à morte e por sua única escolha e culpa.

Estas são algumas questões levantadas principalmente pela antropologia e psicologia, que nos fazem compreender um pouco melhor nosso comportamento frente ao ato de nos alimentarmos.

Referências

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CAMPOS, Maria Teresa Fialho de Sousa; MONTEIRO, Josefina Bressan Resende; ORNELAS, Ana Paula Rodrigues de Castro. Fatores que Afetam o Consumo Alimentar e a Nutrição do Idoso. Revista de Nutrição, Campinas, v. 13, n. 3, p. 157-165, 2000. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 22 set. 2006.

CANESQUI, Ana Maria; DIEZ GARCIA, Rosa Wanda (Org.). Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. 20. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005a. (Coleção Antropologia e Saúde).

CANESQUI, Ana Maria; DIEZ GARCIA, Rosa Wanda. A Antropologia Aplicada às Diferentes Áreas da Nutrição. In: CANESQUI, Ana Maria; DIEZ GARCIA, Rosa Wanda (Org.). Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. 20. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005b. P. 275-286. (Coleção Antropologia e Saúde).

COLLAÇO, Janine Helfst Leicht. Um Olhar Antropológico sobre o Hábito de Comer Fora. Campos: Revista de Antropologia Social, Curitiba, v. 4, n. 1, p. 1-29, 2003. Disponível em: scholar.google.com. Acesso em: 05 jul. 2006.

DEBERT, Guita Grin. A Reinvenção da Velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: EDUSP, Fapesp, 1999.

DÓRIA, Carlos Alberto. A Cozinha Subdesenvolvida. In: TRÓPICO: idéias de norte a sul. Dossiê. [S.l.: s.n., 200-]. Disponível em: www.pphp.uol.com.br/tropico/html/print/854.htm. Acesso em: 05 set. 2006.

GIARD, Luce. A Arte de Nutrir. In: CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A Invenção do Cotidiano 2: morar, cozinhar. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1996. Cap. 10, p. 211-297.

GRACIA ARNAIZ, Mabel. Aplicações da Antropologia à Alimentação: algumas propostas. In: CANESQUI, Ana Maria; DIEZ GARCIA, Rosa Wanda (Org.). Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. 20. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. P. 287-303. (Coleção Antropologia e Saúde).

MACIEL, Maria Eunice. Cultura e Alimentação ou o que têm a ver os Macaquinhos de Koshima com Brillat-Savarin? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 7, n. 16, p. 145-156, 2001. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 22 set. 2006.

MINAYO, Maria Cecília de Souza; COIMBRA JÚNIOR, Carlos E. A. Antropologia, Saúde e Envelhecimento. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002. (Coleção Antropologia e Saúde).

MINTZ, Sidney W. Comida e Antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 47, p. 31-42, 2001. Disponível em: www.scielo.br. Acesso em: 22 set. 2006.

PÉCLAT, Gláucia Tahis da Silva Campos. Hábitos Alimentares e a Noção Simbólica do Comer Fora em Goiás. Guanicuns: Revista da Faculdade de Educação e Ciências Humanas de Anicuns, Anicuns, v. 2, p. 211-223, jun. 2005.

PRADO, Shirley Donizete et al. Alimentação, Saúde e Cultura: algumas reflexões sobre a experiência com narrativas de idosos. Textos Envelhecimento, Rio de Janeiro, v. 8, n. 3, p. 01-15, 2005.


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